Vizinha Maluca
Caros leitores,
Preparem-se para lerem uma história emocionante da vida real que envolve porrada, polícia e até homens da Worten!
Que eu não tinha muita sorte com vizinhas, já eu sabia. Que desta vez me ia calhar uma vizinha psicopata, é que não...
Vou começar pelo início...
Em Novembro, finalmente, consegui arrendar uma casa em Lisboa. Perto do Bairro Alto, mesmo em frente à casa da minha irmã, 5 assoalhadas recuperadas, e caro, mas não muito. Pensei que seria o ideal, apesar de já ter notado que a vizinha de baixo era metida e cusca. Mas isso, pensei eu, era ultrapassável, uma vez que esse tipo de velhinhas não te chateiam muito se não lhes deres razão para isso. Considero-me uma jovem responsável. Respeito os vizinhos, pois também quero que me respeitem a mim, portanto não faço festas até altas horas (aliás, não faço festas, ponto), evito grandes barulheiras durante o dia e a noite, e mantenho uma relação saudável de bons dias e boas tardes com eles. A verdade é que isso não me valeu de nada. Não tendo razões para reclamar comigo, a velha, talvez com uma depressão grave devido à época natalícia que não é muito feliz para aqueles que vivem sozinhos, decidiu inventar razões. Eram 21h da noite e eu e as minhas irmãs brincavamos com o bebé na sala de estar. Tipo, a criança tem 11 meses, nem sequer anda, por isso era basicamente gatinhar e embalar. Não sei se foi o facto de a minha irmã fazer "cavalinho" com ele, que a velha arranjou pretexto para mandar vir.
Tinha passado toda a tarde fechada em casa, com compras de Natal para fazer, à espera que os gajos da Worten me levassem a máquina de lavar roupa que eu tinha comprado (em parte para que a minha roupa lavada à mão não pingasse para cima da roupa da vizinha, no estendal) e que estavam atrasadíssimos (supostamente seria das 14h às 20h o período de espera).
Às 21h, mais coisa menos coisa, chegam os gajos, e eu hiper-chateada já pronta para fazer uma reclamação por escrito contra aquele tipo de abuso. Ora bem, assim que abro a porta de minha casa, a porta da vizinha abre também, como, de resto, já é habitual (ela gosta de saber o que e quem entra na minha casa...). Começa a mandar vir comigo num tom que nunca tinha usado ainda comigo, pois sempre o tinha feito em tom de critica a outros, tipo indirecta, em falsa simpatia. Dizia ela:
- A menina não pode jogar à bola aí em cima!!
E eu, confusa e irritada com o atraso dos gajos da Worten que estavam a tentar entrar com a máquina no fundo das escadas:
- Mas eu não estava a jogar à bola...
- Estava sim, que eu bem ouvi! E não pode! - dizia ela, possuída pela raiva e necessidade de armar escândalo. Eu, sem a paciência que sempre tinha tido com ela desde que cheguei, respondi-lhe.
- Desculpe lá, mas não estava ninguém a jogar à bola, nem sequer a correr. O meu sobrinho tem 12 meses e nem sequer anda!
- Eu chamo a polícia! - gritava ela. A minha irmã, mãe do bebé, que entretanto veio ver o que se passava, disse-lhe:
- Então faça assim: depois das 22h, se continuar a ouvir barulho, chame a polícia. Para já não pode fazer nada.
A gaja passou-se! Viemos para dentro e ficou só a outra minha irmã, que estava a ver se a máquina vinha bem (eu não podia com os nervos e vim para dentro). E não é que, quando os gajos da Worten carregavam a máquina com quase 100 quilos pelas escadas acima e passaram pela porta da velha, esta começou a chamar-lhes "Ladrões!" e a bater com força na cara do gajo da frente? Eu nem sei o que poderia ter acontecido se o gajo tivesse largado a máquina em cima do outro que vinha atrás! Perigo de mulher! Ora bem que eles, a reclamar com a mulher que continuava aos berros na sua porta, subiram para o meu apartamento o mais depressa possível para pousar a máquina antes que ela caísse nas escadas. O que vinha em baixo cometeu o erro de tentar acalmar a mulher e mandá-la para dentro de casa e, ao fazê-lo - a minha irmã foi testemunha - pousou a mão no ombro dela. Ela nem acreditou. Atirou-se para o chão, para trás! Como se fosse um palhaço! A mulher de 70 e tal anos que anda de bengala. Atirou-se ao chão e começou a gritar:
- Socorro, que me estão a atacar!
O homem tentou levantá-la e ela:
- Socorro que me estão a dar pontapés!
Enfim. Nada se podia fazer. O homem veio para cima e montou a máquina enquanto o outro falava de um processo contra a mulher por lhe ter batido enquanto ele carregava aquele peso escadas acima. Enquanto isto, a mulher continuava aos berros, a pedir socorro, polícia, enfim. Quando me dei conta, estava a vizinhança toda, pessoas que passavam, e dois polícias em frente à porta da mulher, nas escadas. Um falou com a mulher, e outro veio falar connosco, que demos a nossa versão dos factos. Não, não somos old-lady-beaters... Os polícias já estavam com ar de desespero, principalmente o que esteve a recolher o relatório da maluca. Pelos vistos já não era a primeira vez que a mulher armava uma cena de polícia com os vizinhos de cima. A senhora que mora no 3º andar, e já lida com a maluca há 35 anos, nem sequer se quis mostrar em frente a ela. Achei estranho, pois pareciam-me amigas, e pensei que numa situação daquelas tentaria acalmar a velha. Pelos vistos já sabia que não valia a pena, então recolheu-se para a sua casa sem dizer nada. No dia seguinte veio dizer-me que a mulher é maluca (duh...), e para eu ter cuidado ao lidar com ela, mas para não ter medo... Eu medo tenho, não posso é mostrar!
No meio desta situação toda estava o meu sobrinho assustadíssimo ao colo da mãe, que também tinha medo de descer para ir para a casa dela, em frente, e passar pela velha! Acabou por aproveitar a escolta da polícia para o fazer!
Conclusão: O homem da Worten que levou porrada de uma velhota prometeu um processo e até recolheu os nossos contactos para efeitos de testemunha. A velhota prometeu processo ao homem da Worten que lhe tocou no ombro. Eu não fiz reclamação nenhuma aos gajos (acho que tiveram castigo suficiente pelo atraso, não?).Eu fui jantar a casa da minha irmã e só voltei quando tinha a certeza que a mulher já estaria a dormir.
No dia seguinte... O dia amanheceu com passarinhos a cantar... Era dia de vir para cima, de férias. Só tinha de limpar as escadas do prédio (o lanço do 2º andar, como me indicaram), que era a minha vez há algum tempo e eu ainda não tinha tido tempo de o fazer. Não é que eu tivesse naquela altura, mas era muito má-onda ir de férias sem o fazer. Por isso peguei na esfregona e comecei a limpar. Ainda estava nos primeiros degraus e ouvi a porta da mulher a abrir. Toca a despachar isto. Ela olha para mim, e eu a pensar "Eu não lhe respondo a nenhuma provocação. Bom dia e boa tarde e acabou." A mulher vira-se para mim e diz-me, como se eu fosse sua criada:
- As escadas são para limpar até lá abaixo!
Sim, um dia, depois das minhas mudanças, eu limpei as escadas todas para fazer um favor à gaja. Começou a lamentar-se que eu ia fazer as mudanças no dia em que a empregada dela limpava as escadas, eu eu ofereci-me para lhe limpar as escadas daquela vez. Erro meu. Não me contive:
- Não foi isso que me disseram. Eu só tenho de limpar este lanço e vocês (esquerdo e direito do 1º andar) é que limpam o outro lanço.
- Não, não! Quem é que suja as escadas?! Quem é que traz beatas agarradas aos sapatos?!
Por acaso tinha encontrado um beata nas escadas que eu limpei - no lanço de escadas que me competia.
- Se calhar até é a senhora. Nunca se sabe o que vem agarrado aos pés!
Não podia deixar de responder. Ela continuou aos berros e eu tentei criar um filtro nos meus ouvidos. Sei que falou de eu lhe ter chamado maluca na noite anterior e que eu não ficaria impune, que ia pagar por isso. Saiba-se que eu chamei-lhe muitas vezes maluca, sim, pois é óbvio, mas nunca em frente a ela, nem em volume que ela pudesse ouvir. Ela deve ter projectado aquilo que ela sabe que é, e que as pessoas sabem, para a minha boca. Ela reclamava, reclamava e, assim que acabei de passar a esfregona, disse-lhe:
- Muito bom dia!
E fechei a porta, continuando a ouvi-la aos gritos. Dentro de casa ouvia-a a chamar-me nomes. Porca. Estúpida. Sei lá que mais, não quis ouvir. Passado uns minutos tive de ir passar a cera nas escadas, já a contar com a próxima cena. Por sorte ela estava entretida à janela a falar mal de mim a algum vizinho. Sim, havia alguém a responder e a concordar com as suas queixas.
- Vêm-me agredir a minha casa! Assassinos!
Que hei-de fazer? Pessoas assim não deviam estar acompanhadas?
Tenho medo que ela me empurre das escadas um dia!
Tenho medo de não poder convidar ninguém para ir lá a casa sem temer pela integridade física dessas pessoas.
Tenho pena... pena porque encontrei uma casa tão fixe, soalheira, confortável, tão bem situada, e por causa de uma pessoa me sinta forçada a mudar. Não sei se aguento muito tempo cenas deste género. Não sei... Se isto acalmar, se a mulher parar com estas cenas, se deixar de me chatear, se eu deixar de a ver!... Nesse caso talvez aguente mais uns meses, qum sabe um ano ou dois. Senão terei de sair de lá assim que o contracto de arrendamento me permitir rescindir, ou seja, daqui a 5 meses... Vamos a ver o que acontece até lá...
